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A Luta na USP – De que lado você samba ?

Estou acompanhando a luta dos estudantes da USP contra a presença da PM no campus e confesso que estou com uma pontinha de inveja positiva dos bravos estudantes que resistem contra a militarização dos espaços universitários. Relembrando João Cabral de Melo Neto:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

Esta nova manhã foi iniciada a partir da prisão de dois alunos que fumavam Cannabis na USP. Vale a pena destacar que no Brasil, desde 2006 com a lei 11.343 usuários não são criminosos passíveis de prisão. Então protestar contra a prisão de colegas usuários é um direito garantido não apenas na constituição, mas na legislação de drogas vigente no país.
Fiquei e fico estarrecido quando vejo incontáveis pessoas achando certo bater e torturar estudantes usuários, desarmados e inofensivos a sociedade. A tortura e a violência são atitudes que não constam como autorizadas em nenhuma legislação no país. E quando 200 estudantes se levantam contra essas medidas e ocupam pacificamente a reitoria da universidade, as pessoas sedentas por violência como num coliseu romano, teleguiadas pela imprensa que deu suporte a ditadura no Brasil, exigem mais tortura e mais violência.
Lutadores que antes eram taxados de subversivos pela imprensa golpista, são tratados como bandidos delinqüentes vândalos como se o AI-5 ainda fosse vigente em pleno regime democrático e num momento histórico no qual uma guerrilheira que já foi torturada nos porões da ditadura governa o nosso país… Sinceramente, eu achava que a luta que tivemos durante a ditadura era para que a cidadania e as liberdades fossem realmente postas em prática, sem torturas e censuras. Mas parece que a mídia acha que aquele período nefasto de nossa história serviu apenas para dar a liberdade de imprensa, liberdade para que “Datenas” multipliquem-se na TV…
No mesmo período histórico em que as mais diversas formas de corrupção e violências são atribuídas as polícias militares de vários Estados, com destaque para o Rio de Janeiro onde mataram juízes e estão expulsando do país parlamentares que investigam as milícias, a população, ainda sim, abre a boca para defender a presença da polícia em um campus universitário. No mesmo período em que está solto nas ruas de São Paulo um bandido conhecido como “tarado da moto” o qual estupra adolescentes na frente dos familiares, a policia está na universidade prendendo e torturando estudantes desarmados e inofensivos à sociedade.

Policia para quem precisa

Tive o prazer de conhecer muito policiais, civis e militares, sérios, comprometidos com a segurança, com os direitos humanos, com o respeito a diversidade. Mas, mesmo assim, não acho que uma autarquia federal deva ter policiais militares como responsáveis pela segurança. Autarquias devem ter autonomia e autonomia exige pessoal próprio para lidar com a segurança. Para mim, polícia no campus só como estudante, para se aperfeiçoarem ainda mais no papel de proteger o cidadão e após passarem no vestibular/ENEM.

Eu já ocupei a reitoria da UFPE e vi isso acontecer algumas vezes. Nunca vi a polícia entrar e prender todos. As ocupações de reitoria que vivenciei foram vencidas no diálogo, na garantia de direitos, nunca com mais violência e autoritarismo.

Pelas imagens que vi, não vi destruição do patrimônio, tanto que o setor administrativo da reitoria estava intacto. Vi algumas intervenções artísticas nas paredes brancas da reitoria. Estas intervenções deveriam ser preservadas para deixar guardado na história o momento em que o reitor pediu para a polícia realizar o seu papel, o momento no qual o reitor mostrou sua incompetência, jogou no lixo a autonomia universitária e apelou para as armas contra os estudantes.

Vejo estarrecido a tentativa de deslegitimar a luta dos estudantes responsabilizando-os pela classe social que fazem parte, mesmo sem saber quem são aquelas pessoas. Ou deslegitimando-os pelo que eles decidem fazer dos corpos dele, como se quem usa droga não fosse um cidadão com direitos. Então ricos, usuários de café, cerveja, vinho, lexotan, rivotril, aspirina, paracetamol estão fadados a tomarem para si uma postura passiva? A não exercerem a cidadania ativa e plena?

Para alguns o único protesto válido é marchar contra a corrupção. Mesmo que estas marchas estejam sendo puxadas pelos partidos políticos que mais tiveram o nome envolvido em escândalos e desvios, mesmo que estas marchas sejam puxadas pelos mesmos veículos de comunicação que acobertavam as torturas do golpe militar.

Ontem 3500 estudantes se reuniram de decidiram pela greve geral da USP.

E você samba de que lado
De que lado você samba
Você samba de que lado
De que lado você samba
De que lado, de que lado
De que lado, de que lado
Você vai sambar?

Eu sambo sempre do lado de quem é oprimido, e você ?

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